terça-feira, 1 de janeiro de 2013


Ela fica sentada próxima
Ao Zaffari

Magra
Com um rosto pálido
Cheio de sardas

Nunca ouvi-la falar uma palavra
Talvez seja seu silêncio
Que me comove
Não consigo vê-la
E não lhe dar nada
Sinto-me culpado.

Ela me deixa em estado de choque
Faz-me refletir
Joga-me na cara,
O fato de ser pessoa
Ignorante
E passiva.

Ela consegue fazer
Tudo isso
Sem dizer uma palavra...

31 de Dezembro


Final do ano
Tempo ameno
Sentado na calçada
38 anos
Alguns sulcos em sua face
Muitas lembranças na memória

Ele olha cabisbaixo
Não aparenta ter muita esperança

Uma moça, alta, magra,
meia idade
o entrega R$ 20,00

Ele a vê,
mal acredita
Agradece
"Obrigado"

O carro parte
Ele continua sentado na calçada
Sentindo o vento passar em seus cabelos

Um novo ano está para começar
Falta pouquíssimo tempo
Todos correm
Desejam ver os fogos
Mas ele não,
Prefere ficar ali,
em sua calçada
Sozinho

Bate um vento gelado,
vindo do sul.

Ele reclama,
diz está com frio
Pede a sua mãe que lhe abrace
Mas ela não o escuta
Está em outro mundo.

É 3h da manhã,
ela "frita" desde às 2h
Ela não escuta nada
Desconectou-se desse mundo
Só quer saber da sua brisa

Ele pensa em chorar
Mas chorar não vai a fazer sair
Daquele estado

Ele olha para os céus
Pede uma resposta
Mas não é ouvido.
(óbviamente)

Ela mandava
Ele obedecia
Eram iguais
(igualmente diferentes)
Ele é um iludido, um fodido
Um saco vazio
Um saco vazio que voava
(que ama voar)

Ela não, não tem lugar para imaginação
Ela não sonha
Ela não espera vir nada na mão, vai buscar
Ela tem convicções
Ela tem deveres
Ela tem responsabilidade

Mas ele sabe o que quer
mas é um saco vazio
da muitas e muitas voltas
até chegar ao seu destino

Ele lê bobagens
(mas bobagem é pouca besteira)
    
Ele é um mero estudante.
Ela é um mero adolescente  
Ela é uma mera adulta...

E eles são meros amantes!
No começo da manhã
Ela se pôs a pensar
Que bom seria
Apenas deitar e relaxar
Sonhar com um futuro diferente
Sonhar com um amor inocente

Mas no fim da tarde,
o tempo voou, ela se ocupou
O pensamento destoou
Percebeu que isso é banal
(que isso não é para ela)
E que não se pode se dar ao luxo de pensar
Tem uma casa para cuidar
Tem sua filha para criar

Ela quer mudar
Mas não tem força
Quer mudar si mesma
Quer mudar o mundo
"Mas a questão não é mudar o mundo.
A questão é descobrir um novo jeito de se andar nele
A questão é ajeitar-se"
A questão é seguir a Roda Viva
Sabendo onde pisar
Mas ela não sabe onde pisar
Não sabe o que vai enfrentar
Ela é utópica
Ela é uma mulher de Atenas
(mas não sabe...)

quarta-feira, 23 de maio de 2012

[ Poema ]

Quando não te doeu acostumar-te a mim,
à minha alma solitária e selvagem, 
a meu nome que todo afugentam. 
Tantas vezes vimos arder o luzeiro 
nos beijando os olhos e sobre nossas cabeças 
destorcer-se os crepúsculos em girantes abanos. 
Sobre ti minhas palavras choveram carícias. 
Desde faz tempo amei teu corpo de nácar ensolarado. 
Chego a te crer a dona do universo.
Te trarei das montanhas flores alegres,
copihues, avelãs escuras, e cestas silvestres de beijos. 
Quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejas."


Pablo Neruda

terça-feira, 22 de maio de 2012

É dificil dizer que se ama

Havia uma moça que passava sempre defronte da minha casa. Eu a via, do outro lado da rua. Ela tinha um defeito na perna que a fazia mancar. O seu rosto tinha uma suavidade, uma beleza que me encantava. E eu ficava com vontade de atravessar a rua e dizer-lhe: " Eu acho você muito bonita!". E voltar correndo para dentro de casa. Nunca tive coragem. Tive medo de que ela me considerasse um velho desrespeitoso, dando-lhe uma cantada. E eu fico a me perguntar: por que é tão difícil dizer aos outros o quanto gostamos deles ? 


Rubem Alves, ostra feliz não faz pérola.